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Eleições 2026: análise da virada de Lula sobre Flávio Bolsonaro

Foto do escritor: Gisele Meter
Gisele Meter
há 3 dias
16 min de leitura
Eleições 2026: análise da virada de Lula sobre Flávio Bolsonaro

A vitória sobre Flávio Bolsonaro, o comportamento do eleitor e os sinais de uma nova disputa pela comunicação política no Brasil.


A eleição presidencial de 2026 terminou com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que venceu Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, realizado em 25 de outubro.


O resultado marcou um feito inédito na história das eleições presidenciais brasileiras: pela primeira vez desde a adoção do sistema de dois turnos, em 1989, um candidato que terminou a primeira votação em segundo lugar conseguiu reverter a vantagem do adversário e vencer a eleição.


Até então, em todas as disputas presidenciais decididas no segundo turno, havia vencido o candidato que liderou o primeiro. Lula rompeu esse histórico ao derrotar Flávio Bolsonaro, contrariando também a vantagem numérica apontada por diferentes pesquisas ao longo da campanha.


O resultado também ajuda a entender o comportamento do eleitor brasileiro, principalmente em uma disputa tão acirrada, marcada pela polarização, pela rejeição aos dois candidatos e pelas mudanças na intenção de voto ao longo do segundo turno.


Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Lula recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro obteve 59.826.041 votos, ou 48,21%. A diferença foi de aproximadamente 4,4 milhões de votos.


O comparecimento também aumentou. Cerca de 128,2 milhões de brasileiros participaram do segundo turno, e a abstenção caiu de 21,08% para aproximadamente 19,2%.


A vantagem do primeiro turno nas eleições de 2026


Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A diferença foi de aproximadamente 2,2 milhões de votos, colocando o candidato do PL em vantagem numérica.


As primeiras pesquisas realizadas depois da votação reforçaram essa posição. O PoderData, em levantamento realizado entre 5 e 7 de outubro, apontou Flávio com 53% dos votos válidos, contra 47% de Lula. A AtlasIntel, em pesquisa realizada entre 3 e 8 de outubro, apresentou resultado semelhante: 52,8% para Flávio e 47,2% para Lula.

Os números indicavam um cenário favorável ao candidato do PL, mas a vantagem ainda precisava ser confirmada nas urnas.


O segundo turno apresentou uma dinâmica diferente da primeira votação. Com apenas dois candidatos, os eleitores que haviam escolhido outras alternativas precisam decidir entre Lula ou Flávio Bolsonaro, votar em branco, anular o voto ou não comparecer.


Além desses eleitores, havia também aqueles que já tinham votado em Lula ou Flávio Bolsonaro no primeiro turno, mas que poderiam mudar de opinião. Isso porque, os debates, as declarações dos candidatos e os acontecimentos da campanha também influenciaram a decisão do eleitor até o dia da votação.


O que mudou entre os dois turnos?


Quando comparamos os votos dos dois turnos, conseguimos perceber melhor o tamanho dessa virada. Lula saiu de aproximadamente 53,9 milhões de votos no primeiro turno para 64,3 milhões no segundo, um aumento de cerca de 10,4 milhões.


Já Flávio Bolsonaro passou de 56,1 milhões para 59,8 milhões, conquistando aproximadamente 3,7 milhões de votos a mais. Ou seja, os dois ampliaram suas votações, mas Lula teve um crescimento maior, suficiente para reverter a vantagem inicial de Flávio e vencer a eleição.


Outro dado importante foi a participação eleitoral. Aproximadamente 3 milhões de eleitores a mais compareceram às urnas no segundo turno. Ao mesmo tempo, o número de votos brancos e nulos diminuiu.


Esses números mostram o tamanho da mudança entre os dois turnos, mas é preciso ter cuidado ao interpretá-los. Só com os dados da votação, não conseguimos saber quantos eleitores mudaram o voto de Flávio para Lula, quantos haviam escolhido outros candidatos ou quantos deixaram de votar em branco ou nulo. O que podemos afirmar é que houve uma mudança na distribuição dos votos e também na participação dos eleitores.


Para entender melhor o que aconteceu, ainda precisamos olhar com mais atenção para o comportamento dos eleitores, os resultados em cada município e como diferentes grupos da população votaram. Essas análises poderão ajudar a explicar de onde vieram os votos que mudaram o resultado da eleição.


A rejeição também fez parte da disputa


A eleição de 2026 também foi marcada pela alta rejeição aos dois candidatos. Na pesquisa Datafolha divulgada na véspera da votação, Lula tinha 46% de rejeição e Flávio Bolsonaro, 45%. Ou seja, os dois chegaram ao segundo turno enfrentando uma resistência muito parecida por parte do eleitorado, o que ajuda a entender o cenário de polarização em que a disputa aconteceu.


Em uma eleição tão polarizada, nem sempre o eleitor vota porque gosta de um candidato ou concorda com suas propostas. Muitas vezes, a escolha também é feita pela rejeição ao adversário. Ou seja, parte dos eleitores pode votar em alguém simplesmente porque não quer que o outro vença.


Nesse cenário das eleições de 2026, a comunicação ganhou ainda mais importância no segundo turno. Além de manter o apoio de quem já havia escolhido um candidato, as campanhas precisavam alcançar os eleitores que ainda estavam indecisos ou que demonstravam resistência aos dois nomes.


Com índices tão altos de rejeição, cada declaração, proposta ou debate poderia influenciar a maneira como o eleitor enxergava os candidatos e tomava sua decisão.


Mas é importante lembrar que a rejeição, sozinha, também não explica a vitória de Lula. Ela ajuda a entender o cenário em que a disputa aconteceu.


O papel da comunicação na reta final


Uma eleição presidencial é influenciada por muitos fatores, como a economia, a situação do país, as diferenças regionais e o cenário político. Mas a comunicação também tem um papel importante, porque ajuda a definir quais assuntos ganham destaque, como os eleitores enxergam cada candidato e de que maneira suas propostas chegam até a população.


E foi nesse cenário que Lula e Flávio Bolsonaro chegaram ao segundo turno, cada um com seus desafios. Lula buscava a reeleição e já tinha uma trajetória política conhecida, além dos resultados do governo que poderia apresentar aos eleitores. Por outro lado, também precisava lidar com o desgaste de quem estava no poder e com a rejeição de uma parcela significativa da população.


Já Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno depois de liderar a primeira votação, contando com o apoio de um eleitorado bolsonarista bastante mobilizado. Mas, para ampliar sua votação, precisava conquistar também a confiança de pessoas que ainda não se identificavam com sua candidatura ou que demonstravam resistência ao seu nome.


Nas três semanas que separaram os dois turnos, as campanhas aumentaram a presença nas redes sociais, no WhatsApp, na imprensa e nas ruas, buscando mobilizar seus apoiadores e conquistar os votos que ainda estavam em disputa.


Na campanha de Lula, uma das iniciativas que ganharam destaque foi o Exército do Lula, canal de WhatsApp organizado pelo deputado federal André Janones, que ultrapassou 10 milhões de seguidores. Por meio dele, os apoiadores recebiam vídeos, mensagens e orientações para compartilhar os conteúdos em outras redes sociais, ajudando a ampliar a circulação das publicações da campanha.


Flávio Bolsonaro também utilizou transmissões ao vivo e seus canais digitais para mobilizar seguidores, divulgar conteúdos e incentivar a participação de apoiadores na reta final da campanha.


As duas campanhas mostraram que a disputa digital já não depende apenas do que o candidato publica em seus próprios perfis. No segundo turno, as redes de apoiadores participaram ativamente da divulgação, fizeram os conteúdos circular por diferentes canais e ajudaram a manter determinados assuntos em evidência. Na minha avaliação, um dos pontos mais importantes dessa eleição foi justamente a capacidade de organizar essas redes e transformar os próprios apoiadores em participantes ativos da comunicação.


Mas também considero importante olhar para a maneira como cada campanha se comunicou com os eleitores. Quais assuntos conseguiram ganhar espaço? Como os candidatos reagiram aos acontecimentos? E, principalmente, como suas mensagens foram recebidas por quem ainda estava decidindo o voto?


São questões que merecem análise, especialmente diante de uma eleição em que Lula conseguiu reverter a vantagem inicial de Flávio Bolsonaro.


E falando em comunicação... Lula anuncia uma mudança na comunicação do governo


Um dos pontos que me chamou atenção do discurso de vitória de Lula, na noite de 25 de outubro, foi o reconhecimento público da importância da comunicação digital.

Depois de agradecer a André Janones pela mobilização durante o segundo turno, Lula afirmou que a eleição havia lhe ensinado muitas lições e prometeu mudar sua maneira de governar.


Em sua declaração, disse:


“A comunicação digital vai ganhar um espaço muito grande no meu governo.”

Lula também afirmou que pretende conversar diretamente com os brasileiros com maior frequência, sem depender exclusivamente da interpretação da imprensa para transmitir suas declarações.


Durante a comemoração na Avenida Paulista, Lula reforçou essa intenção ao afirmar que pretende utilizar o canal de WhatsApp organizado por André Janones para se comunicar com seus apoiadores. Acostumado a uma comunicação mais presencial, baseada em discursos públicos, na televisão e na imprensa, o presidente sinalizou que pretende ampliar sua presença digital durante o próximo mandato.


Essa decisão tem relação com a experiência da própria campanha. Por meio do Exército do Lula, os apoiadores não apenas recebiam vídeos e mensagens, mas também eram incentivados a compartilhar os conteúdos, ajudando a ampliar sua circulação nas redes sociais. Ao defender que essa mobilização continue mesmo depois da eleição, Lula indica que pretende manter essa rede ativa e fortalecer o contato direto com seus apoiadores.


Ainda não sabemos como essa rede será utilizada durante o próximo mandato, nem qual será o papel de André Janones nesse processo. Mas uma coisa já ficou evidente: Lula pretende aproveitar a experiência do segundo turno para mudar sua forma de se comunicar com a população. E aqui existe um ponto importante, porque a comunicação de um governo tem responsabilidades diferentes das de uma campanha eleitoral.


Em uma campanha, a comunicação busca conquistar votos e mobilizar apoiadores. Já na administração pública, ela precisa atender a toda a população, informando sobre as ações do governo, os serviços disponíveis, as decisões tomadas, os resultados alcançados e a utilização dos recursos públicos. Por isso, manter uma rede de apoiadores mobilizada é diferente de construir uma comunicação institucional que chegue a todos os cidadãos, independentemente de suas preferências políticas.


Essa diferença também está prevista na Constituição, que determina que a comunicação dos órgãos públicos tenha caráter educativo, informativo ou de orientação social, respeitando o princípio da impessoalidade. Na prática, isso significa que a mobilização política feita pelos apoiadores precisa ser separada da comunicação oficial do governo, que deve servir ao interesse público e não pode ser utilizada para promover autoridades ou interesses partidários.


Outro ponto importante é a relação com a imprensa. Ao utilizar seus próprios canais digitais, o presidente consegue falar diretamente com a população, sem depender dos veículos de comunicação para transmitir suas mensagens. Mas isso não substitui o trabalho da imprensa, que tem o papel de apurar informações, contextualizar os acontecimentos e questionar as decisões do governo.


Afinal, uma boa comunicação pública precisa ir além de divulgar ações e alcançar pessoas. Também deve garantir transparência, prestar contas e estar aberta aos questionamentos da sociedade.


Dito isso... como poderá ser a comunicação dos dois campos políticos?


Com o fim da eleição, começa uma nova fase para os dois campos políticos. Lula, agora reeleito, terá o desafio de manter o apoio da população e conquistar a confiança de quem não votou nele. Já Flávio Bolsonaro e seus aliados precisarão definir como vão atuar na oposição e manter a relação com seus eleitores. Mesmo com desafios diferentes, os dois lados continuarão disputando espaço no debate público e a confiança dos brasileiros.


Do lado de Lula, a experiência do segundo turno pode influenciar a maneira como o presidente e seus aliados vão atuar nas redes sociais. O próprio Lula já sinalizou que pretende estar mais presente no ambiente digital, utilizando vídeos, transmissões ao vivo e aplicativos de mensagens para falar diretamente com a população. Também será importante observar se os grupos organizados durante a campanha, como o Exército do Lula, continuarão ativos para mobilizar apoiadores e defender as posições do governo.


Ainda não sabemos como esses grupos serão utilizados daqui para frente, mas o desafio de Lula será ir além da mobilização dos apoiadores e conseguir mostrar à população o que seu governo está fazendo e quais resultados estão sendo alcançados. Afinal, manter quem já apoia o presidente é importante, mas também será necessário dialogar com quem não votou nele, principalmente com aqueles que avaliam o governo pelo que acontece no dia a dia, como a economia, o emprego, a segurança e os serviços públicos.


Já para o campo bolsonarista, o cenário será diferente. Mesmo com a derrota, Flávio Bolsonaro terminou a eleição com quase 60 milhões de votos e uma base expressiva de apoiadores. Além disso, a direita bolsonarista conta com parlamentares, influenciadores e lideranças regionais que construíram uma presença forte nas redes sociais ao longo dos últimos anos. Nomes como Nikolas Ferreira e Pablo Marçal também participaram da mobilização digital em torno da candidatura de Flávio, cada um com seu próprio estilo de comunicação e público.


Com a derrota, esse grupo poderá reorganizar sua atuação política e digital, dando mais espaço às críticas e à fiscalização do governo Lula, ao debate sobre propostas e à manutenção do contato com os eleitores que apoiaram Flávio Bolsonaro.


Outro ponto que merece atenção é a reação de Flávio Bolsonaro ao resultado da eleição. Após a derrota, ele afirmou que não reconhecia a vitória de Lula e anunciou que recorreria à Justiça para pedir a anulação da votação, questionando a prorrogação do horário de votação em algumas localidades. Mas é importante separar essa contestação do resultado oficial divulgado pelo TSE. O fato de um candidato questionar a eleição não significa que tenha sido comprovada alguma irregularidade capaz de mudar o resultado.


A forma como Flávio Bolsonaro e seus aliados vão conduzir esse questionamento também poderá influenciar a comunicação da oposição nos próximos meses. Mas, olhando um pouco mais adiante, será importante observar se a direita conseguirá manter a mobilização que construiu durante a campanha e ampliar o diálogo com a população. Outro ponto será a relação entre as próprias lideranças desse campo, já que, mesmo com uma base expressiva de eleitores, isso não significa que todos vão seguir os mesmos nomes ou defender as mesmas posições.


Tanto para o governo quanto para a oposição, o desafio será ir além das redes sociais, porque ter muitos seguidores, visualizações e publicações não significa necessariamente conquistar a confiança da população.


Essa confiança dependerá da credibilidade das lideranças, da maneira como se comunicam com a população e, principalmente, da coerência entre o que dizem e o que fazem na prática.


O que observar na comunicação política depois das eleições


A eleição de 2026 também mostrou que a comunicação política não precisa ficar restrita ao período de campanha. Com grupos de WhatsApp, canais digitais e redes de apoiadores, as lideranças conseguem manter contato com a população mesmo depois da votação, compartilhar informações e incentivar a participação das pessoas. Esses espaços também podem aproximar políticos e cidadãos, principalmente quando são utilizados não apenas para divulgar conteúdos, mas também para ouvir as demandas da população.


Por outro lado, esses grupos também podem fazer com que as pessoas tenham contato apenas com informações que reforçam aquilo em que já acreditam, dificultando o diálogo com quem pensa diferente e aumentando ainda mais a polarização. Esse será um desafio tanto para o governo quanto para a oposição.


Com as informações circulando cada vez mais rápido, governo e oposição também precisarão responder com mais agilidade. Mas essa velocidade exige cuidado, porque tão importante quanto responder rapidamente é verificar os fatos, divulgar informações corretas e reconhecer quando houver algum erro.


Outro ponto que merece atenção é o uso cada vez maior da inteligência artificial na comunicação política. Essa tecnologia pode facilitar a produção de conteúdos e ampliar o acesso à informação, mas também traz riscos de manipulação e desinformação.


No discurso de vitória, Lula voltou a defender a regulamentação das plataformas digitais e criticou o que considera uma interferência dessas empresas no processo eleitoral. Essa discussão deve ganhar ainda mais espaço nos próximos anos, principalmente quando falamos da responsabilidade das plataformas, da liberdade de expressão e dos limites da atuação do Estado no ambiente digital.


Além das discussões sobre o funcionamento das plataformas e o uso da inteligência artificial, também precisamos olhar para a responsabilidade de quem produz e compartilha conteúdos políticos.


Afinal, a tecnologia facilita o contato com as pessoas, mas estar presente nas redes sociais não significa necessariamente estar próximo da população. Essa relação também depende da capacidade de ouvir, responder às demandas e, principalmente, manter a coerência entre aquilo que é comunicado e o que realmente acontece na prática.


O que aconteceu com as pesquisas eleitorais?


As pesquisas também ajudam a entender como essa disputa mudou ao longo do segundo turno. Flávio Bolsonaro começou com vantagem, mas a diferença foi diminuindo. Na véspera da eleição, Datafolha e Quaest apontavam 51% dos votos válidos para Flávio e 49% para Lula.


Como a diferença estava dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, os resultados indicavam um empate técnico. Nas urnas, porém, Lula venceu com 51,79% dos votos válidos, contrariando a vantagem numérica apontada pelos levantamentos.


Esse resultado reforça algo que considero importante: uma vantagem numérica nas pesquisas, principalmente quando existe empate técnico, não pode ser tratada como uma vitória antecipada.


É importante lembrar que as pesquisas mostram a intenção de voto de um grupo de eleitores entrevistados em determinado momento. Os resultados dependem de como a pesquisa foi realizada, de quem foi ouvido e da metodologia utilizada. Além disso, nem sempre é possível prever quem realmente vai comparecer às urnas ou quantas pessoas ainda poderão mudar de opinião nos últimos dias antes da votação.


O empate técnico mostrava que a disputa estava aberta, mas não podemos ignorar que as últimas pesquisas apontavam Flávio Bolsonaro numericamente à frente e que Lula acabou vencendo. Na minha avaliação, essa diferença precisa ser examinada pelos institutos, principalmente em relação às metodologias utilizadas, às estimativas de comparecimento e às possíveis mudanças na intenção de voto.


Isso não significa desacreditar as pesquisas, mas considero importante que os institutos expliquem o que pode ter provocado essa diferença entre os levantamentos e o resultado das urnas. Afinal, estamos falando de números que ajudam a formar a percepção das pessoas sobre uma eleição.


E aqui também entra a responsabilidade de quem divulga essas informações. Quando a diferença entre os candidatos está dentro da margem de erro, é preciso deixar isso evidente para a população. Uma vantagem numérica não pode ser apresentada como se o resultado já estivesse definido, principalmente em uma disputa tão apertada.


Também é preciso falar do peso das lideranças políticas


A eleição de 2026 também mostrou a importância das lideranças que estiveram ao lado dos candidatos. Afinal, uma disputa presidencial não depende apenas da força de quem concorre, mas também da capacidade de mobilização de governadores, parlamentares, influenciadores e outras figuras políticas que ajudam a ampliar o alcance das campanhas.


No digital, vimos o protagonismo de André Janones na campanha de Lula e de Nikolas Ferreira na mobilização em favor de Flávio Bolsonaro. Pablo Marçal também participou desse movimento, mostrando como diferentes lideranças podem contribuir para a circulação de conteúdos e para a mobilização de seus próprios públicos.


Mas essa influência foi além do ambiente digital. Flávio Bolsonaro contou com o apoio de governadores como Tarcísio de Freitas, em São Paulo, e Cleitinho Azevedo, em Minas Gerais. Já Lula teve ao seu lado lideranças como Jerônimo Rodrigues, na Bahia, e Rafael Fonteles, no Piauí.


Esses apoios são importantes porque as lideranças regionais possuem suas próprias bases políticas e capacidade de mobilização. Mas o resultado também mostrou que reunir apoios expressivos não garante uma vitória. Mesmo contando com o apoio de mais governadores eleitos no primeiro turno, Flávio Bolsonaro acabou derrotado.


E aqui existe uma questão que vale a pena observar daqui para frente: como essas lideranças vão se posicionar depois da eleição? Algumas poderão ganhar mais espaço no governo, outras poderão assumir protagonismo na oposição e também haverá aquelas que buscarão fortalecer seus próprios projetos políticos.


A maneira como esses nomes vão atuar poderá influenciar tanto a relação entre o governo federal e os estados quanto a reorganização dos dois campos políticos nos próximos ano.


O que o resultado revela sobre o Brasil?


A vitória de Lula por uma diferença de 3,58 pontos percentuais mostrou um país que continua politicamente dividido. O presidente conseguiu a reeleição, mas quase metade dos votos válidos foi para Flávio Bolsonaro. Isso significa que, embora a eleição tenha definido quem vai governar, os dois campos políticos continuam contando com o apoio de milhões de brasileiros.


Para Lula, o desafio será governar diante de uma oposição expressiva, negociar com o Congresso e responder às expectativas da população, principalmente em questões que afetam diretamente a vida das pessoas, como economia, emprego, segurança, saúde e educação. Já para Flávio Bolsonaro e seus aliados, será o momento de avaliar o resultado, reorganizar a atuação política e definir como vão exercer a oposição nos próximos anos.


Na minha avaliação, um dos cuidados que precisamos ter ao analisar essa eleição é não tentar explicar tudo por um único fator. A virada de Lula, o aumento do comparecimento, a rejeição aos candidatos e a mobilização das campanhas fazem parte de um cenário muito mais amplo, que ainda precisa ser estudado para entendermos melhor o comportamento do eleitor brasileiro.


A eleição também mostrou que os dois campos políticos possuem bases expressivas, mas enfrentam dificuldades para conquistar a confiança de quem pensa diferente. E talvez esse seja um dos aspectos mais importantes do resultado: vencer uma eleição não significa conquistar a confiança de toda a população, assim como perder não significa deixar de ter influência política.


O Brasil sai dessa disputa com um presidente reeleito, uma oposição que recebeu quase 60 milhões de votos e uma sociedade que continuará cobrando respostas para seus problemas. A maneira como governo e oposição vão lidar com essa realidade poderá influenciar a relação dos brasileiros com a política nos próximos anos.


O que observar daqui para frente?


A eleição terminou, mas seus desdobramentos políticos estão apenas começando. Nos próximos meses, será importante acompanhar como governo e oposição vão se reorganizar e, principalmente, como as decisões tomadas daqui para frente poderão influenciar a relação dos brasileiros com a política.


Um dos primeiros pontos será observar se Lula colocará em prática as mudanças que anunciou para a comunicação digital. A experiência do segundo turno poderá influenciar a maneira como o presidente e seus aliados vão se comunicar com a população. Mas também será necessário acompanhar como essa nova atuação vai funcionar na prática e quais serão os limites entre a comunicação institucional e a mobilização política dos apoiadores.


A regulamentação das big techs também merece atenção. O tema poderá ganhar espaço no Congresso e provocar discussões sobre a responsabilidade das plataformas, a liberdade de expressão e a circulação de informações. Será importante acompanhar quais propostas serão apresentadas e como poderão afetar a comunicação política no Brasil.


Do lado da oposição, será o momento de observar como Flávio Bolsonaro e as demais lideranças da direita vão se posicionar. Além de acompanhar a atuação do governo, esses grupos precisarão definir suas prioridades e a maneira como pretendem manter o contato com seus eleitores.


Também devemos prestar atenção aos assuntos que vão ganhar espaço no debate público. Economia, segurança, políticas voltadas às mulheres e religião estiveram presentes na disputa eleitoral e poderão continuar influenciando a relação entre governo, oposição e diferentes setores da sociedade. Mas será importante observar quais desses temas vão se transformar em propostas e decisões concretas.


Outro ponto que considero importante é acompanhar o comportamento dos eleitores depois da eleição. As próximas pesquisas poderão mostrar como os brasileiros estão avaliando o governo, quais são suas principais preocupações e se a identificação com os dois campos políticos continuará da mesma maneira.


E, para quem trabalha com comunicação política, talvez uma das principais questões seja entender como as lideranças vão manter sua relação com a população fora do período eleitoral. Afinal, durante uma campanha, existe uma mobilização muito grande em torno da disputa pelo voto. Depois dela, as pessoas continuam com suas necessidades, expectativas e cobranças.


A eleição de 2026 mostrou que os dois campos políticos continuam tendo força no Brasil. Agora, será importante acompanhar como cada um vai utilizar essa força, quais caminhos serão escolhidos e, principalmente, como tudo isso vai se refletir na vida dos brasileiros.


Fontes pesquisadas


 
 

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